top of page

PASSADO MULHER, PRESENTE MULHER: BREVE OLHAR PARA A REPRESENTAÇÃO POLÍTICA FEMININA EM RUANDA

Atualizado: 26 de abr.

Recentemente, li uma publicação no substrack do diplomata Rômulo Neves, intitulada Ruanda - uma pérola no centro da África, em que o autor discorre sobre diferentes facetas do território ruandês. Entre os pontos de ênfase, um, particularmente, me chamou atenção: Ruanda é o país com maior representação parlamentar feminina no mundo, elas são mais de 60% do Parlamento, ultrapassando com margem a cota prevista na Constituição de 2003, que assegura 30% dos assentos às mulheres. Esse dado gerou uma grande curiosidade em mim, e, com isso em mente, selecionei uma bibliografia que investiga gênero no contexto pós-genocídio em Ruanda, e a partir desse levantamento, trago algumas considerações que se inserem em um esforço de reflexão inicial acerca da temática


Para compreender o presente ruandês, é preciso fazer uma retomada (nos limites desta breve publicação) que considere o período pré-colonial, em que observa-se espaços significativos de agência feminina, sobretudo no âmbito das elites políticas. Figuras como as Rainhas-Mães (Umugabekazi), incluindo Nyiramongi e Kanjogera, exerciam papel central na governança do reino atuando como co-governantes, influenciando decisões políticas, sucessões dinásticas e a própria construção da memória histórica (Janer, 2016). 

Sob essa perspectiva, o cenário pré-colonial serve, a posteriori, como base estratégica para o Estado ruandês moderno ao legitimar as políticas atuais de igualdade de gênero por meio de precedentes históricos. O governo utiliza esse legado para facilitar a integração de mulheres em instituições, como o parlamento e as forças armadas. Esse cenário também reverbera na criação de espaços de diálogo nacionais, que são vistos como uma progressão de práticas ancestrais de consenso e construção de Estado que antecedem o período colonial (Holmes, 2018).  


Posteriormente, a colonização europeia dividiu etnicamente o país e reforçou estruturas hierárquicas, o que reestruturou os papéis de gênero no país, marginalizando ainda mais a participação feminina nos espaços formais de poder. Logo, quando a estrutura europeia foi transportada para o país, além da separação das etnias, houve uma reconfiguração dos papeis de gênero (Janer, 2016) . 


 Seguindo essa retomada histórica, o genocídio em Ruanda relaciona-se com as construções sociais e políticas que reforçaram divisões étnicas entre hutus e tutsis, construídas ao longo do período colonial. Essas classificações foram mobilizadas de forma violenta e em cerca de cem dias, aproximadamente 800 mil pessoas foram mortas. Logo, pensar sobre Ruanda é, necessariamente, refletir sobre o genocídio e sua dimensão de gênero, uma vez que a violência sexual foi utilizada de forma sistemática como instrumento de destruição, com mulheres sendo alvos deliberados. Como apontado por Crenshaw (2002), ao conceituar interseccionalidade, é nítido como a violência incidiu de maneira específica sobre mulheres hutus, justamente pela combinação entre pertencimento étnico e gênero.


Considerar a complexidade de 1994 é determinante pois a forma como mulheres foram afetadas implicou diretamente na conduta da população em relação às mulheres após o genocídio. Além disso, o impacto demográfico foi significativo, pois a morte de um grande contingente de homens adultos alterou de forma profunda a composição social de Ruanda, o que, inevitavelmente, é um dos fatores que pode explicar a inserção feminina em diferentes esferas da vida pública.


Assim, durante o período de reconstrução e reconciliação, a Frente Patriótica Ruandesa (RPF), incorporou a inclusão feminina como um de seus pilares fundamentais. Nessa perspectiva, mulheres passaram a ocupar posições no Executivo, Legislativo e Judiciário, tidas como agentes fundamentais para a reconstrução nacional. Nesse contexto, políticas públicas e reformas foram implementadas para ampliar os direitos das mulheres, como legislações sobre herança, trabalho e proteção social. Programas como o Vision 2020 e estratégias de desenvolvimento econômico também incorporaram o gênero como eixo central (Janer, 2016). 


Depreende-se que, a presença feminina em cargos de liderança permite que elas moldem os rumos políticos de maneira construtiva, extrapolando a percepção que as associa exclusivamente à condição de vítimas. Ao exercerem o poder de escolha, mulheres consolidam-se como participantes de grande valor, cuja atuação é primordial para a reconstrução da sociedade (Mageza-Barthel, 2016) .


Para mais, destaca-se que, apesar da evidente centralidade da violência de gênero no genocídio, o direito internacional demorou a reconhecer essa dimensão, e a Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio não incluía gênero como critério de perseguição. Foi apenas com deliberações do Tribunal Penal Internacional para Ruanda (TPIR), que o estupro passou a ser reconhecido como instrumento constitutivo do genocídio. Esse avanço representou uma alteração determinante na maneira como a violência sexual é compreendida no direito internacional (Mageza-Barthel, 2016). 


Ruanda ainda enfrenta desafios, especialmente em relação a violência contra mulher. Entre diversos fatores que tangenciam essa dimensão, cabe destacar que em virtude do contexto histórico do país há uma diferença marcante na forma como a violência é tratada, pois enquanto abusos cometidos durante o conflito são amplamente condenados, práticas cotidianas muitas vezes permanecem, de certo modo, “naturalizadas”. 


Com isso posto, conclui-se que a representação política por si só não é sinônimo de igualdade de gênero e o sistema político ruandês ainda mantém mecanismos de controle, que limitam a expressão de dissenso. Logo, pensar em representação política feminina não resume-se a dados quantitativos, e muito pelo contrário, envolve como elas participam de processos e as formas de engajamento feminino (Mwambari, Walsh, Olonisakin, 2021). 


Por fim, os pontos aqui apresentados indicam apenas uma parte das múltiplas camadas que estruturam a experiência ruandesa. Há ainda um amplo campo a ser explorado, que não foi trabalhado aqui, como por exemplo o papel das Nações Unidas e as dinâmicas internacionais no pós o genocídio e as controversias que envolvem a atuação da RPF. Ainda assim, essa breve constatação reforça a necessidade de pesquisas mais aprofundadas sobre as diferentes camadas que atravessam a relação entre gênero, poder e reconstrução em Ruanda. 



REFERÊNCIAS

CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Revista Estudos Feministas, v. 10, n. 1, p. 171–188, jan. 2002. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ref/a/mbTpP4SFXPnJZ397j8fSBQQ/abstract/?lang=pt. Acesso em: 06 abr. 2026.


HOLMES, Georgina. Gender and the Military in Post-Genocide Rwanda. In: BEMPORAD, Elissa; WARREN, Joyce W. (ed.). Women and Genocide: Survivors, Victims, Perpetrators. Bloomington: Bloomington: Indiana University Press, 2018. p. 223-249. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/325089578_Gender_and_the_military_in_Post-Genocide_Rwanda. Acesso em: 31 mar. 2026.


JANER, Patricia Anne. The Correlation between Women’s Political Representation & Violence Against Women in Rwanda. p. 1-16, 2016. Disponível em: https://www.academia.edu/34513894/The_Correlation_between_Womens_Political_Representation_and_Violence_Against_Women_in_Rwanda. Acesso em: 31 mar. 2026.


MAGEZA-BARTHEL, Rirhandu. Mobilizing transnational gender politics in post-genocide Rwanda. New York: Routledge, 2016. Disponível em: https://www.academia.edu/38299062/Mobilizing_Transnational_Gender_Politics_in_Post_Genocide_Rwanda_Routledge_2015_. Acesso em: 31 mar. 2026.


MWAMBARI, David; WALSH, Barney; OLONISAKIN, ’Funmi. Women’s overlooked contribution to Rwanda’s state-building conversations. Conflict, Security & Development, [S.L.], v. 21, n. 4, p. 475-499, 4 jul. 2021. Informa UK Limited. http://dx.doi.org/10.1080/14678802.2021.1974699. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/14678802.2021.1974699. Acesso em: 31 mar. 2026.


NEVES, Rômulo. Ruanda: uma pérola no centro da África. Substack, 12, fev. 2026. Disponível em: https://romuloneves.substack.com/p/ruanda-uma-perola-no-centro-da-africa . Acesso em 01 abr. 2026.

Cecília Nham Bega

Graduanda em Relações Internacionais pela universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp Marília). Visite o Lattes para mais publicações da autora.



 
 
 

Comentários


leia mulheres (1)_edited.png

MaRIas USP

© 2026 Todos os direitos reservados
Em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD - Lei nº 13.709/2018)

Contato: marias@usp.br

 

bottom of page