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Entre fronteiras e desigualdades: a inserção laboral de mulheres venezuelanas no Brasil


A migração venezuelana ao Brasil passou a ser significativa e com alto índice de deslocamento devido às crises institucionais que o país começou a enfrentar em meados de 2013. Dessa maneira, o Brasil, por ser país fronteiriço à Venezuela, tornou-se uma opção para aquelas pessoas que buscavam uma nova oportunidade de vida. Partindo dessa perspectiva, é importante salientar que as mulheres fazem parte de um grande contingente, no qual integram a população venezuelana no país, no entanto, a sua inserção acaba por ser prejudicada, devido às desigualdades de gênero. 

Nos primeiros meses de 2026, foram registradas 1.492 solicitações de refúgio de mulheres venezuelanas, evidenciando sua expressiva participação no fluxo migratório (Brasil, 2026). Sendo assim, faz-se necessário entender o contexto em que estão sendo colocadas ao adentrarem o país, partindo da premissa de que, no sistema capitalista, as relações econômicas determinam e organizam grande parte das dinâmicas sociais. O presente trabalho, portanto, visa entender como essas mulheres estão inseridas no mercado de trabalho brasileiro, analisando as condições e os espaços laborais que lhes são disponibilizados dentro do contexto migratório. 

Apesar dos esforços governamentais brasileiros, como a Operação Acolhida, e de organizações internacionais, eles ainda não são suficientes para assegurar uma integração plena dessas refugiadas. Além da dificuldade para acessar o mercado de trabalho formal, esse grupo ainda enfrenta discriminação e preconceito, que remete a estruturas históricas de exclusão de grupos que são considerados diferentes (Barzallo, 2025; Brandt, 2025).

 Um exemplo são as mulheres venezuelanas com ensino superior: muitas delas têm dificuldade de revalidar seus diplomas nas áreas de formação. Isso se deve à alta burocracia e exigência de documentação acadêmica, que, mesmo sendo possíveis, não são fáceis para pessoas que estão fugindo de seu país de origem. Para esse processo, é necessário fazer a tradução juramentada de seus documentos, taxas governamentais, além da barreira linguística e da demora do processo (como acontece com o Revalida, para a Medicina). Com isso, torna-se complexo conciliar longos processos de equivalência com a necessidade de trabalhar para garantir a subsistência (ONU Mulheres, 2023). 

Podemos notar esse problema com Aleska, uma venezuelana que é formada em Medicina, porém ela não ainda não consegue exercer a profissão no Brasil:

Decidi voltar a trabalhar mesmo fora da minha área porque temos muitas contas para pagar. Fiz curso de babá, de cuidadora, de copeira hospitalar… e, com apoio do ACNUR e da International Finance Corporation (IFC), comecei a trabalhar como copeira em um hospital, onde fiquei por dois anos, mas queria muito poder trabalhar na minha área (ONU Mulheres, 2023).

Segundo Aleska, a universidade na Venezuela levou mais de três anos para enviar a documentação necessária para o processo de revalidação do diploma no Brasil. Ela espera a segunda fase da prova e, se aprovada, poderá enfim exercer a profissão (ONU Mulheres, 2023). Isso é um dos muitos exemplos que demonstram a dificuldade de mulheres venezuelanas, mesmo formadas, conseguirem se estabelecer no Brasil, indo então para trabalhos que não têm correlação com o que realmente querem.

Para além da perspectiva documental e burocrática, existem outros fatores que as impedem de estarem plenamente inseridas no mercado de trabalho brasileiro. As mulheres enfrentam uma  forte desigualdade de gênero no país. Importante salientar que os homens venezuelanos possuem uma maior empregabilidade do que elas, segundo dados da ACNUR (2024), no último trimestre, os homens correspondiam a 62,5% das contratações formais e as mulheres 37,5%. 

O dado demonstra que existem impeditivos para sua inserção plena, uma forma de entender a problemática relacionada ao gênero é a exclusão de mães no mercado formal. Em 2024, 82% das mulheres que não estavam trabalhando eram mães (Visão Mundial, 2024). Esse fator pode ser explicado pelos obstáculos concretos de seu cotidiano, como a necessidade de cuidado integral de seus filhos, ou ausência de apoio familiar, devido ao fato de estarem longe de seu país, mas, para além disso, a lógica mercadológica é excludente com as mães trabalhadoras. 

Outro fator importante de desigualdade de gênero é em relação aos salários recebidos por elas em relação aos homens venezuelanos, segundo o perfil populacional estudado pela ACNUR em conjunto com o Ministério do Trabalho no primeiro trimestre de 2024, a maior parte deles possui ensino médio completo, os homens nessa posição ganham em média R$1.826,00 e as mulheres, R$1.669,4 (ACNUR, 2024). Nesse sentido, pode-se estabelecer também quais são os setores em que estão alocadas em sua maioria, sendo eles: alimentadores de linha de produção (8.255) e magarefes e afins (6.304) (ACNUR, 2024). Tais ocupações, predominantemente manuais e de baixa remuneração, evidenciam a forte desigualdade enfrentada por elas no setor laboral, ou seja, possuem mais entraves para a conquista de um cargo e, quando o fazem, ganham abaixo. 

Trazendo para o debate das teorias das Relações Internacionais, faz-se necessário entender outros aspectos que o cercam. Logo, pode-se pensar na contribuição da teoria interseccional (Crenshaw, 1989), que permite analisar de que maneira gênero, raça e classe se articulam nas vidas dessas mulheres quando adentram o Brasil, segundo Crenshaw (2002): 

A interseccionalidade é uma conceituação do problema que busca capturar as consequências estruturais e dinâmicas da interação entre dois ou mais eixos da subordinação. Ela trata especificamente da forma pela qual o racismo, o patriarcalismo, a opressão de classe e outros sistemas discriminatórios criam desigualdades básicas que estruturam as posições relativas de mulheres, raças, etnias, classes e outras. Além disso, a interseccionalidade trata da forma como ações e políticas específicas geram opressões que fluem ao longo de tais eixos, constituindo aspectos dinâmicos ou ativos do desempoderamento (Crenshaw, 2002, p. 177).  

Segundo a Organização Internacional para as Imigrações (2023), com dados do Monitoramento do Fluxo de Deslocamento de venezuelanos: 67% das mulheres venezuelanas entrevistadas em Roraima se consideravam “morenas”, categoria utilizada pelo próprio relatório, em um país marcado historicamente pelo racismo estrutural, no qual há uma forte hierarquização social perante a cor e, assim, restrição de oportunidades. Somado a isso, sabe-se que grande parte dessas mulheres atravessa a fronteira em condições financeiras precárias, o que insere a questão de classe como mais uma camada de vulnerabilidade. 

Além dos fatores supracitados, o fato de serem venezuelanas também pode ser uma peça-chave para xenofobias recorrentes e uma vulnerabilidade social. A fronteira do Brasil com a Venezuela viveu inúmeros momentos de tensões, de protestos de brasileiros contra os imigrantes, de invasão de abrigos e expulsão de venezuelanos (Jiménez; Murillo; Castro, 2018).  

Dessa forma, cria-se um estereótipo ruim do(a) imigrante venezuelano(a), um ideário sem respaldo e fabricado de que são um mal a ser combatido, sendo altamente prejudicial para sua inserção social e econômica no Brasil, o que afeta diretamente e principalmente as mulheres, como pode se notar nos dados sobre impedimentos de ocupação laboral. Assim, por meio da perspectiva interseccional, compreende-se que essas mulheres não enfrentam discriminações de forma isolada, mas sim a sobreposição simultânea de marcadores, os quais, combinados, produzem formas específicas e agravadas de exclusão social.  

Pesquisadoras como Moreira, Dias e Maia (2021) demonstram que, muitas vezes, as respostas humanitárias não são desenhadas a partir das realidades concretas das mulheres migrantes, o que pode reforçar estereótipos de gênero e a subordinação econômica dessas mulheres. Nesse sentido, algumas iniciativas voltadas à inserção produtiva de mulheres venezuelanas acabam reproduzindo uma lógica tradicional de gênero. Um exemplo são cursos de capacitação oferecidos de forma generalizada, como os mencionados pelo ACNUR (2019), voltados para atividades como costura ou cuidado de idosos. Embora tais ações possam representar uma possibilidade imediata de geração de renda, elas também revelam uma limitação importante: ao direcionarem as mulheres para ocupações historicamente associadas ao cuidado e ao trabalho doméstico, sem uma reflexão mais aprofundada sobre autonomia econômica, qualificação profissional e reconhecimento de trajetórias anteriores, essas iniciativas podem recolocá-las em papéis socialmente feminilizados e pouco valorizados.

Além disso, as mulheres migrantes venezuelanas aparecem com frequência em discursos oficiais e midiáticos como símbolo de vulnerabilidade, sendo retratadas como “mães guerreiras”, responsáveis pela reconstrução da família em solo brasileiro e pela expressão de uma suposta “resiliência feminina”. Essa representação, embora pareça positiva em um primeiro momento, também pode limitar a compreensão dessas mulheres como sujeitos autônomos, vinculando-as prioritariamente ao cuidado familiar e à maternidade, e não à sua inserção profissional, independência econômica e projetos individuais de vida (Machado, 2021). Dessa forma, quando políticas públicas genéricas se somam à ausência de dados mais detalhados sobre gênero, raça, maternidade, escolaridade, trajetória profissional e condições de trabalho, torna-se difícil mensurar os impactos reais dessas ações sobre a vida das mulheres venezuelanas. Como resultado, as desigualdades que atravessam sua inserção laboral permanecem parcialmente invisibilizadas, ainda que os dados já indiquem entraves importantes, como a menor empregabilidade feminina, a desigualdade salarial e a concentração em ocupações manuais e de baixa remuneração.

Diante disso, é possível compreender que a inserção das mulheres venezuelanas no mercado de trabalho brasileiro não ocorre de forma neutra, mas atravessada por desigualdades de gênero, raça, classe e nacionalidade. Embora a Operação Acolhida e a atuação de organismos internacionais representem esforços importantes para o acolhimento e a integração dessa população, ainda existem lacunas significativas quando se observa a realidade específica das mulheres. A dificuldade de revalidação de diplomas, a concentração em ocupações de baixa remuneração, a sobrecarga do cuidado familiar, a maternidade, a desigualdade salarial e a ausência de políticas mais sensíveis ao gênero demonstram que a integração laboral dessas migrantes permanece limitada.

Nesse sentido, a análise interseccional permite evidenciar que essas mulheres não enfrentam apenas a condição de migrantes ou refugiadas, mas uma sobreposição de vulnerabilidades que impacta diretamente suas possibilidades de autonomia econômica e reconhecimento social. Assim, pensar políticas públicas para mulheres venezuelanas exige ir além de respostas humanitárias genéricas ou de cursos de capacitação baseados em papéis tradicionalmente femininos. É necessário construir estratégias que considerem suas trajetórias profissionais, seus níveis de escolaridade, suas responsabilidades familiares e os obstáculos concretos que enfrentam no Brasil. Somente a partir dessa perspectiva será possível promover uma integração mais justa, que não apenas acolha essas mulheres, mas também reconheça sua agência, suas capacidades e seu direito a uma vida digna e autônoma.


Bibliografia: 


ACNUR. Guia para comunicadores sobre migrações, refúgio e apatridia. Brasília: ACNUR, 2019. Disponível em: https://www.acnur.org/br/sites/br/files/2025-01/2019-guia-comunicadores-migracoes-refugio-apatridia.pdf. Acesso em: 24 maio 2026. 


ALTO COMISSARIADO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA REFUGIADOS (ACNUR); MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO (MTE). Informe sobre o mercado de trabalho formal para venezuelanos refugiados e migrantes no Brasil: 1º trimestre de 2024. Brasília: ACNUR; MTE, 2024. Disponível em: https://www.acnur.org/br/sites/br/files/2025-02/202403-informe-mercado-trabalho-formal-venezuelanos-brasil.pdf. Acesso em: 28 maio 2026. 


BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Secretaria Nacional de Justiça (SENAJUS); OBSERVATÓRIO DAS MIGRAÇÕES INTERNACIONAIS (OBMigra); UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA (UnB). DataMigra BI: painel interativo de dados sobre migrações internacionais e refúgio no Brasil. Brasília, 2024. Disponível em: https://app.powerbi.com/view?r=eyJrIjoiMGM3NjkzYjQtNWUyZi00NmIzLWEyODMzLWM4ZTZkNDhmODA1OSJ9&pageName=2a555d64be07f5353cb1. Acesso em: 25 maio 2026. 


CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Revista Estudos Feministas, v. 10, n. 01, p. 171–188, 2002. Disponível em: <http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S0104-026x2002000100011&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt>. Acesso em: 25 maio de 2026 


JIMÉNEZ, C.; MURILLO, Á.; CASTRO, Maolis. Êxodo da Venezuela e Nicarágua provoca surtos xenófobos na região. EL PAÍS Brasil, São Paulo; San José (Costa Rica); Caracas, 20 ago. 2018. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/19/internacional/1534701044_585193.html. Acesso em: 25 maio 2026. 


MACHADO, Victória Figueiredo. Braço forte, mão amiga: a migração venezuelana, a Operação Acolhida e a (re)construção da identidade brasileira na fronteira. 186 f. Dissertação (Mestrado em Relações Internacionais) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2021.


ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL PARA AS MIGRAÇÕES (OIM). DTM Roraima – 8ª Rodada 2023. Brasília: OIM Brasil, 2024. Disponível em: https://brazil.iom.int/sites/g/files/tmzbdl1496/files/documents/2024-04/dtm-roraima-8-rodada_2023.pdf. Acesso em: 23 maio 2026. 


ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL PARA AS MIGRAÇÕES (OIM). DTM Roraima – 8ª Rodada 2023. Brasília: OIM Brasil, 2024. Disponível em: https://brazil.iom.int/sites/g/files/tmzbdl1496/files/documents/2024-04/dtm-roraima-8-rodada_2023.pdf. Acesso em: 23 maio 2026. 


Visão Mundial Brasil. Estudo de linha de base: meios de vida e proteção. [S. l.], 2024. Disponível em: https://visaomundial.org.br/publicacoes/estudo-de-linha-de-base-meios-de-vida-e-protecao. Acesso em: 25 maio 2025.


Ana Carolina Massari

Graduada em Relações Internacionais pela UNESP de Marília (FFC), tendo como ênfase de pesquisa gênero e migrações.

Visite o Lattes para mais publicações da autora.



Cecilia Silva Andrade

Graduada em Relações Internacionais pela PUC-SP e Mestranda em Relações Internacionais pela UNIFESP.

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